Experiência apresentada durante a XVIII Jornada Norte-Nordeste de Centro Cirúrgico e CME mostra como a digitalização dos registros pode ampliar o controle dos processos e agilizar investigações.
Durante a XVIII Jornada Norte-Nordeste de Centro Cirúrgico e CME, em Fortaleza, a Enf. Esp. Mariana Campos de Souza, da EquipMed, e o Enf. Msc. João Paulo Belini Jacques apresentaram uma pergunta simples, mas capaz de revelar muito sobre a maturidade dos processos de uma Central de Material e Esterilização:
“Se amanhã alguém perguntar como determinado instrumental foi processado, você consegue reconstruir toda a história dele?”
Quem processou? Quando foi recebido? Como foi realizada a limpeza? Qual equipamento foi utilizado? Quais parâmetros foram empregados? Existem resultados dos indicadores? A liberação para uso foi documentada?
Essas perguntas ajudam a entender por que rastreabilidade não pode ser reduzida à presença de uma etiqueta.
1. Rastreabilidade é a história do material
Na apresentação, rastreabilidade foi definida como a capacidade de acompanhar, documentar e reconstruir o histórico do produto para saúde, incluindo sua localização, processamento e trajetória até o uso pelo paciente.
Isso muda a perspectiva.
A etiqueta identifica. A rastreabilidade conecta informações.
O processo gera evidências desde a entrada e limpeza, passando por inspeção, preparo, esterilização e liberação, armazenamento e distribuição, até o uso e eventual investigação.
2. O que realmente precisa ser rastreado?
Uma estrutura consistente precisa relacionar diferentes informações.
Entre os elementos apresentados estão:
- identificação, lote e código do produto;
- fabricante e origem;
- data e ciclo de processamento;
- equipamento e operador;
- indicadores e seus resultados;
- destino e paciente.
A apresentação também chama atenção para a integração da CME com outros setores: Centro Cirúrgico, assistência, prontuário e gestão da qualidade.
Isso reforça uma ideia importante:
Rastreabilidade não é um dado isolado. É uma cadeia de informações.
3. Quando a rastreabilidade falha, surgem perguntas sem resposta
A apresentação utiliza um cenário hipotético de uma infecção possivelmente relacionada a uma falha no processamento.
Nesse contexto, perguntas críticas surgem imediatamente:
Qual carga foi processada?
Qual instrumental foi utilizado?
Qual paciente foi afetado?
Quem processou?
Quem liberou?
Quem mais recebeu produtos daquela carga?
É nesse momento que o registro deixa de ser burocracia.
Ele se torna evidência para investigação e tomada de decisão.
4. Da rastreabilidade manual ao sistema digital
Aqui está, para mim, a parte mais valiosa do artigo, porque sai da teoria.
A experiência apresentada mostra uma operação que inicialmente utilizava etiquetas manuais de três linhas, contendo basicamente informações de ciclo e validade.
O processo evoluiu para etiquetas com informações adicionais, incluindo operador responsável, enfermeiro responsável, ciclo, data do processamento, validade e tipo de esterilização.
Ainda assim, havia uma limitação:
as informações não estavam armazenadas em um sistema digital.
Com a implantação do sistema, os registros passaram a incluir não somente os processos de esterilização, mas também testes Bowie-Dick, liberadores de carga e indicadores biológicos, mantendo as informações organizadas e acessíveis.
Antes, localizar determinadas informações podia exigir consultas manuais em documentos e arquivos.
Depois da implantação, consultas por data, ciclo, carga ou teste passaram a permitir acesso centralizado às informações.
5. Tecnologia sozinha não implanta rastreabilidade
Outro ponto muito forte da apresentação é reconhecer as dificuldades da vida real.
Entre os desafios identificados estavam registros incompletos, falta de padronização, sistemas sem integração, sobrecarga de trabalho, resistência da equipe, diferentes níveis de maturidade e limitações de TI.
Por isso, implantar rastreabilidade exige planejamento.
A experiência apresentada recomenda começar com um inventário atualizado dos materiais, definir a forma de identificação, cadastrar previamente materiais, procedimentos, caixas e usuários e realizar a implantação de maneira estruturada.
E existe outro elemento indispensável:
as pessoas.
Treinamento, participação ativa na implantação, protocolos e auditoria aparecem como estratégias para aumentar a adesão das equipes.
6. O que mudou na prática?
Segundo a experiência compartilhada na apresentação, após a implantação foram percebidas melhorias como:
redução de registros incompletos, redução de erros e retrabalho, menor tempo para investigações, melhoria da comunicação, redução de perdas de instrumentais e maior segurança do processo.
Esse é um ponto importante para gestores.
Rastreabilidade não deve ser analisada somente sob a perspectiva documental.
Ela também pode contribuir para a eficiência operacional da CME.
7. E o processo nunca está definitivamente pronto
A própria experiência apresentada reconhece pontos que ainda precisam evoluir, especialmente a comunicação entre TI e enfermagem, questões relacionadas à separação de materiais no Centro Cirúrgico e a dinâmica de trabalho entre equipes.
Isso dá ainda mais credibilidade ao conteúdo.
Uma implantação real não termina quando o software entra em operação.
Ela exige acompanhamento, treinamento, auditoria e melhoria contínua.
A pergunta que toda CME deveria conseguir responder
Ao final da apresentação, Mariana e João Paulo deixam uma reflexão:
“Se amanhã eu precisar provar que fiz certo, eu consigo?”
Essa talvez seja uma das formas mais simples de avaliar a maturidade da rastreabilidade de uma CME.
Escolha um produto processado.
É possível reconstruir sua história da entrada ao destino?
É possível identificar as etapas realizadas, os responsáveis, os ciclos e os resultados?
As informações estão disponíveis quando são necessárias?
Fazer certo é essencial. Ter evidências consistentes do que foi realizado fortalece a segurança do processo, a investigação e a capacidade de gestão da instituição.
“Rastreabilidade não é apenas ter a etiqueta”






